Para Lá da Rampa: O Que o Selo ‘Festival Acessível’ Garante

A multidão avança em direção ao Palco Mundo, no Parque Tejo. Para quem se desloca em cadeira de rodas, a massa humana não é atmosfera—é arquitetura: um muro de corpos de pé, um horizonte que termina nos ombros de outra pessoa, chão que passa de alcatrão a cascalho sem aviso.

Este verão, o Rock in Rio Lisboa enfrentou esse muro de frente. Novas plataformas de visibilidade junto ao palco principal, uma sala sensorial para visitantes em sobrecarga sensorial e um centro de acessibilidade com equipa dedicada garantiram-lhe uma das quatro certificações “Festival Acessível” atribuídas pelo Turismo de Portugal e pelo Instituto dos Direitos das Pessoas com Deficiência para 2026. Os outros três: a Feira do Livro de Lisboa, o Imaginarius, festival de artes de rua de Santa Maria da Feira, e o Serralves em Festa, no Porto.

O programa, criado no âmbito da iniciativa All for All do Turismo de Portugal, avalia os eventos quanto a conforto, segurança, autonomia de circulação, acesso à informação e experiência cultural inclusiva. Em 2019, Portugal recebeu o primeiro prémio mundial de Destino Turístico Acessível da Organização Mundial do Turismo; esta certificação é a tradução prática desse reconhecimento: um troféu transformado em política concreta.

A edição de 2026 vai bem além da rampa e do lugar reservado. O Serralves em Festa, a celebrar a 20.ª edição com 50 horas gratuitas de programação e mais de 650 artistas, disponibilizou coletes hápticos em concertos selecionados no Palco do Prado, permitindo que espectadores surdos sentissem a música através da vibração. O Imaginarius, certificado pela terceira vez desde 2023, ofereceu auscultadores com cancelamento de ruído para visitantes neurodivergentes, materiais em Braille, interpretação em Língua Gestual Portuguesa e transfers gratuitos entre o Europarque e o centro histórico da Feira. A Feira do Livro de Lisboa (350 pavilhões, mais de 2200 eventos ao longo da 96.ª edição) estreou empréstimo gratuito de carrinhos de bebé, vídeo-guia de acessibilidade para trabalhadores e parceria com a ColorADD para que visitantes daltónicos pudessem ler a sinalética.

O programa está a crescer: em 2025, apenas dois festivais foram certificados; este ano, quatro ultrapassaram a avaliação. As candidaturas ao ciclo 2025–2026 estão abertas até 30 de setembro de 2026, com antecedência mínima de três meses relativamente à data do evento. Um prémio anual de até 15 000 euros distingue o festival com melhor desempenho.

De volta ao Parque Tejo, a plataforma de visibilidade é uma estrutura metálica simples: alguns metros de elevação e uma linha de vista desimpedida. Não é engenharia revolucionária—é apenas a diferença entre ver um concerto e ouvir um, atrás de uma multidão que não se consegue transpor.

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