Uma mulher apagada da própria história—descrita apenas pela boca dos homens que a temem. A Sycorax de Shakespeare nunca entra em cena em A Tempestade, mas a sua ausência molda toda a trama. É precisamente esse tipo de apagamento que Alice Geirinhas tem vindo a desmontar ao longo de quatro décadas de trabalho artístico.
Na Galeria PeP, no MNAC–Museu do Chiado, Sycorax (até 20 de setembro) devolve corpo à bruxa-mãe: doze desenhos de grande formato que recuperam os contrastes crus e o simbolismo moralizante das gravuras medievais sobre a caça às bruxas, virando a iconografia da perseguição contra si mesma. Com curadoria de Lúcia Saldanha e Rui Afonso Santos, a instalação restitui a Sycorax «corpo, gesto e território», nas palavras da artista—agência reconquistada pelo traço e pela tinta.
Mas Geirinhas está também a traçar um roteiro de verão pelas galerias de Lisboa, e algumas dessas portas não voltarão a abrir. Em Alvalade, a Galeria Vera Cortês—depois de mais de vinte anos dedicados à promoção da arte contemporânea em Portugal—encerrará definitivamente a 19 de dezembro. A exposição atual, The Narrative Structure (até 5 de setembro), reúne duas peças raramente expostas da artista Ana Vieira: Mesa-Paisagem (1973) e a série Close-Up (2004), explorações do espaço doméstico, da memória e da política do olhar. Com curadoria de Antonia Gaeta, esta pode ser a última oportunidade de as encontrar na galeria que lutou para manter este tipo de trabalho visível.
No MUDE, Autocolante: Iconografia da Liberdade (até 30 de agosto) recorre ao acervo da Associação Cultural Ephemera para percorrer cinco décadas de história política portuguesa através de autocolantes—o mais descartável dos objetos gráficos, convertido em ferramenta de revolução. Geirinhas disse à Agenda Cultural de Lisboa que a considera «belíssima, extraordinária»—uma revisitação de revolução e transformação «através do autocolante, um objeto gráfico que se vê como efémero e descartável».
Na Galeria Zé dos Bois, uma antológica de Paulo Bruscky (até 31 de agosto) percorre as experiências do artista conceptual brasileiro com poesia visual, mail art e fotocópia desde os anos 1970. «Um charme», resume Geirinhas.
Quatro exposições, três bairros, um verão. Alguns destes espaços não lhe sobreviverão.