Crédito à habitação bate recorde com maior subida desde 2003

Mil milhões de euros num mês. Foi este o ritmo a que o stock de crédito à habitação cresceu em junho—cerca de 35 milhões por dia canalizados para dívida hipotecária, uma cadência que o país não conhecia desde os anos que antecederam a pior crise financeira da sua história recente.

Os dados do Banco de Portugal, divulgados a 27 de julho, situam o stock de empréstimos à habitação em 116,8 mil milhões de euros no final do mês, o valor mais alto desde o início da série estatística, em 1979. A variação homóloga acelerou para 10,9%, um patamar que não se registava desde fevereiro de 2003, o prólogo da expansão creditícia que alimentou a bolha imobiliária portuguesa e desembocou no resgate da troika. Só em junho o stock engordou 1.056 milhões de euros.

O motor tem rosto: em 2025, os jovens até 35 anos representavam já 54% dos novos contratos, contra 40% no ano anterior, impulsionados pela garantia pública que permite financiar até 100% do imóvel. O programa redesenhou o mapa de risco. Entre 2024 e 2025, a proporção de mutuários de risco elevado saltou de 3% para 21%; os créditos com rácio LTV acima de 90% passaram de um residual 0,1% para 19%, sendo que 85% desses têm financiamento total ao abrigo da garantia estatal. Em abril de 2026 o Governo reforçou o envelope em 750 milhões de euros.

O regulador está a puxar o travão. A partir de 1 de agosto (cinco dias após a publicação destes números), entra em vigor um novo limite da taxa de esforço de 45%, abaixo dos anteriores 50%. Que o travão morda a tempo é outra questão: o crescimento do crédito português já supera a média da zona euro, e uma mudança estrutural silenciosa pode atenuar a outra alavanca do supervisor. Pela primeira vez, os contratos a taxa mista e fixa ultrapassaram a variável no stock total, o que significa que os movimentos da Euribor já não se propagam a todos os orçamentos familiares como em 2003.

A máquina hipotecária, em suma, está mais quente e ligada de forma diferente do que há duas décadas. O ritmo de mil milhões por mês é o mesmo; os amortecedores, não.

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