
Um ramo atravessa o que poderia ser crosta mineral ou uma superfície moldada e abandonada ao tempo. Nas novas peças de Paulo Canilhas, formas densas e estratificadas ocupam o limiar entre a escultura e o sedimento—o gesto e a erosão tornam-se indistinguíveis.
São estas formas que compõem Das pedras que crescemos, a quarta exposição do Acervo Santa Maria Maior e a primeira a entregar a coleção da freguesia do Chiado a um artista de fora. A proposta não era comentar nem reorganizar, mas colocar obra nova em contacto com o que já existia e observar o atrito. A mostra abre a 2 de julho na Rua Serpa Pinto 2B, a poucos passos do MNAC, e prolonga-se até 29 de agosto, de segunda a sábado, das 14h00 às 20h00. Entrada livre.
O Acervo tem apenas sete meses (inaugurado em dezembro de 2025), mas assenta numa década de acumulação. Desde 2017, cada artista que expõe na Galeria Santa Maria Maior, no átrio da sede da junta de freguesia, doa uma obra. Mais de quarenta exposições depois, a coleção sustenta programação própria.
Canilhas, nascido em Almada em 1969 e formado no AR.CO, dedica quase uma década à matéria mineral: de As pedras do caminho que faço (2017), passando por A arquitectura de uma flor, até formas onde a vegetação já não se insinua contra a arquitetura mas cresce de dentro da própria pedra.
Para a instalação, escolheu das reservas do Acervo uma fotografia de Orlando Azevedo. Azevedo, nascido na Terceira em 1949, expôs a série Ruínas na galeria da freguesia, quase certamente o caminho pelo qual a imagem entrou na coleção. Entre os corpos minerais de Canilhas e as ruínas documentadas por Azevedo, a exposição propõe um diálogo sobre o que persiste e o que se transforma, sem forçar resolução.
Calcário, basalto, calçada: Lisboa sempre construiu com o que tinha debaixo dos pés. Na Rua Serpa Pinto 2B, uma coleção feita obra a obra coloca a pergunta que o título do seu mais recente artista formula: não nos limitamos a construir com pedra. Crescemos a partir dela.