
As cadeiras são estreitas, as linhas de visão próximas, o estuque tão fresco que ainda parece novo. O Teatro Variedades, a sala do Parque Mayer, veste a segunda vida com uma confiança discreta. A 8 de julho, fez cem anos.
Nasceu em plena convulsão—inaugurado em 1926 com a revista Pó de Arroz e Vasco Santana no elenco, fechou logo no dia seguinte por causa do golpe militar. Sobreviveu à ditadura, ao incêndio de 1966 que destruiu a caixa de palco e a três décadas de abandono. A reabilitação de cinco milhões de euros desenhada por Manuel Aires Mateus devolveu-lhe a vida a 5 de outubro de 2024. Agora, numa cidade onde os espaços históricos continuam a ceder à pressão imobiliária, o programa do centenário funciona como declaração: este palco não volta a apagar-se.
A peça central é VARIEDADES (…como uma ópera bufa erótica e satírica), criada por Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares e encenada por Gil: uma revista satírica na tradição da casa, em cena até 16 de agosto (de quarta a sábado às 21:00, domingos às 16:00, €14 a €22 na BOL). Dez intérpretes e um sexteto liderado por Soares ao piano preenchem cerca de duas horas.
Em torno do espetáculo, o centenário recupera mais do passado da sala. A exposição Um Lugar chamado Variedades, com curadoria de José Daniel Ferreira e Mário Nascimento e coprodução do Museu de Lisboa, preenche o foyer e os corredores com fotografias, programas e testemunhos áudio recolhidos num apelo público da EGEAC (entrada livre, patente até 15 de agosto de 2027). O ciclo Rostos do Variedades exibe clássicos restaurados, como A Canção de Lisboa (1933), no Cinecapitólio e no Cinema São Jorge ao longo de julho, enquanto o livro 100 Anos de Variedades, de Paula Gomes Magalhães, editado pela Imprensa Nacional, oferece ao edifício uma biografia de 264 páginas.
Na noite do centenário, antes de o pano subir, Cláudia Pascoal cantou no foyer “Cheira Bem, Cheira a Lisboa”. A canção nasceu dentro destas paredes e voltou à sala que a ouviu pela primeira vez. As cadeiras continuam estreitas. O palco, mais uma vez, está aceso.