Três mil por semana: o Parque Mayer deixou de ser promessa

Num sábado de abril, dois palcos ganharam vida a cem metros de distância. No Capitólio, Sofia Escobar preparava-se para ser Eva Perón; do outro lado do pátio, no Teatro Variedades, o elenco de In The Heights de Lin-Manuel Miranda estava prestes a subir ao palco—pela primeira vez em português. Entre as duas salas, mais de três mil espectadores por semana passavam por portas que, uma década antes, não davam em nada.

O número, divulgado pela Lisboa Cultura em meados de abril, deu a medida da mudança no Parque Mayer, o quarteirão de espetáculos que passou quase trinta anos atrás de tapumes. Ao ritmo daquelas semanas de primavera, o complexo projetava cerca de 156 000 espectadores por ano, quase 2,6 vezes os 60 000 que passaram pelo Capitólio e pelo Variedades em todo o ano de 2024. O regresso já não é uma imagem de outdoor. É um facto de bilheteira.

O Capitólio voltou à gestão pública da EGEAC (agora Lisboa Cultura) no final de 2023. O Variedades, encerrado durante cerca de três décadas, reabriu a 5 de outubro de 2024 após reabilitação do arquiteto Manuel Aires Mateus, que preservou a sala de mais de 300 lugares. Com o Teatro Maria Vitória, aberto desde 1922, o Parque Mayer tem agora três palcos em funcionamento—algo que não acontecia há uma geração.

O que encheu as salas foi programação de reconhecimento imediato: musicais consagrados com elencos de peso. Evita, produção da Yellow Star Company com Escobar e Diogo Morgado, teve sessões de quinta a domingo no Capitólio até 28 de junho (€25–€35). In The Heights, com encenação de Sissi Martins e Luísa Cruz no elenco, esteve no Variedades de 25 de março a 3 de maio (€20–€30). No verão, a programação estendeu-se ao terraço: a segunda edição do Cinecapitólio Rooftop, com curadoria de Rui Pedro Tendinha, exibe ciclos dedicados a David Lynch, Christopher Nolan e Tim Burton até 26 de setembro (€14).

Nem tudo está concluído. A Câmara aprovou em outubro de 2024 alterações ao Plano de Pormenor do Parque Mayer, introduzindo habitação e reduzindo o estacionamento subterrâneo para proteger cursos de água, mas os quarteirões em redor continuam por intervir. Os palcos estão vivos; o plano urbanístico segue atrás.

A 8 de julho, o Variedades fez cem anos, um século depois da inauguração. A fila à porta tem o ar de sempre: gente a decidir onde jantar depois do pano, num bairro que finalmente lhe dá motivo para ficar.

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