
A meio do espetáculo, as palavras surgem suspensas sobre o palco num néon vermelho: “Protect me from what I want” (“Protege-me daquilo que quero”). A text-piece de Jenny Holzer desce como um veredicto sobre uma plateia lisboeta que passou a última hora a fruir do próprio espetáculo de corrupção que a peça se propôs diagnosticar. Quando o néon se acende, o encenador Ivo Saraiva e Silva e o coletivo SillySeason já cumpriram a missão: a cumplicidade está instalada.
O seu Macbeth—com o título que Shakespeare lhe deu, embora decididamente não seja Shakespeare—reconstrói a escalada sangrenta do general escocês com a gramática do espetáculo populista: câmaras, ecrãs, sedução algorítmica. “O nosso objetivo é que o espectador comece o espetáculo muito confortável”, explicou Saraiva e Silva à Agenda Cultural de Lisboa, “e acabe no desconforto de sentir que, também ele, é Macbeth.”
“Protege-me daquilo que eu quero.”
Jenny Holzer, em néon vermelho sobre o palco
A peça abre com a atriz Patrícia Brüheim a encarar, em simultâneo, uma câmara e a plateia, confessando que lhe falta “uma boa narrativa para existir”—um apelo de influencer disfarçado de prólogo teatral. Num solilóquio metateatral, Rafael Carvalho imagina o Macbeth de hoje como “um tipo niilista, meio depressivo, meio apático a olhar para o vazio” e pergunta: “Encenamos? Negamos? Reinterpretamos?” A peça responde sim às três. Segue-se uma escalada ao poder convertida em conteúdo. Rostos preenchem um telão. A violência torna-se entretenimento. A profecia das bruxas—”tu tornas-te maior do que tu próprio”—funciona como mantra de crescimento digital. O cofundador Ricardo Teixeira observa que a peça “terá sido sempre muito difícil de se ver, não só pelo horror, mas porque confronta cada um de nós com muitas das coisas que reprimimos.” A manosfera e o populismo digital entram em cena como extensões contemporâneas do horror mais antigo do texto: a violência normalizada, sobretudo contra mulheres e minorias.
O néon continua aceso depois dos aplausos. Não pergunta duas vezes.